Quanto tempo passou até lhe dizer o meu nome? A discoteca era a mesma, os sofás pretos de cabedal e as paredes vermelhas alaranjadas serviam como cenário, a multidão era um simples acessório. «Digo-te o meu se me disseres o teu.» diz pela milésima vez. Não sei que implicação foi aquela, mas o mistério tornou-se um jogo, eu era a rapariga sem nome, e ele um desconhecido que cada vez mais se alojava sem convite no meu coração. Olhei-o nos olhos, e tive um vislumbre de algo que me fez tomar a iniciativa «Shadow», olhou-me surpreendido «Taylor» , «És inglês?» perguntei. Abanou a cabeça «Não, americano», fitei-o curiosa. Nessa noite contou-me a sua vida, falou-me dos seus sonhos, dos seu medos e eu expliquei-lhe a minha história, a minha família e as minhas aspirações. Acho que foi nessa noite que nos tornamos amigos, pelo menos foi aí que me comecei a apaixonar por ele.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
#5
Quando olho para o passado aquela noite tem mesmo tom amarelado dos seus olhos dourados, carinhosos. Dançava, o ambiente que para muitos podia ser sufocante para mim era natural, a música entranhava-se no meu corpo, tocava-me na pele, acariciava-me a alma. Uma mão no meu ombro, cabelos de corvo, um sorriso, se meu ou dele pouco interessa, o hálito era o mesmo que recordava, quanto tempo se passara? Dias ou semanas. Naquela noite o seu olhar estrelado cativou-me e não lhe falei com desprezo mas com a timidez de menina que no fundo era, num «Olá», que saiu desajeitado, agudo. Retribui-me «Olá» com a satisfação e o carisma tão próprios da sua pessoa, dançamos, falamos e ficou por ali. Nem contactos trocados nem promessas de futuros. Ficou por ali, mas o destino dá muitas voltas.
domingo, 1 de dezembro de 2013
#4
Conheci-o num clube de Lisboa há uns meses atrás, e sim ele
mexeu comigo, mas tudo o que veio depois afastou-o irremediavelmente. Estava
com um grupo de amigos, a música bombava alto de mais, as luzes cegavam-me, mas
ninguém reparou, tenho esse efeito nas pessoas: só vêm o que quero que vejam.
Fui até ao bar. Perto de mim estava sentado um tipo com cabelo de corvo e
um hálito a usky que se cheirava à distância. «Um
ice-tea», pedi, não gosto de álcool, nem em ocasiões. O rapaz ergue a
cabeça, de sobrancelha arqueada, num gesto de provocação. «Dê-lhe antes uma vodka com limão,
tem ar de quem precisa.», ignorei-o. «Um
ice-tea de manga, por favor», repeti.
Tinha a bebida na mão quando ele soltou uma gargalhada sonora «És teimosa», disse « Como é que te chamas?»,
olhei-o com desprezo « Isso
interessa?». Sorriu «
Não». Virei costas e
fui-me embora, mas ele havia de vir atrás de mim.
sábado, 30 de novembro de 2013
#3
Eu tinha uma melhor amiga, tínhamos planos, tínhamos sonhos, tínhamos uma vida, tanto por fazer, tanto por ser feito, nós tínhamos tudo e não dávamos valor a nada. E depois ela morreu e enterrei parte de mim com ela. Se a culpa foi minha? Não... Mas eu podia ter feito muito mais.
#2
Quanto eu tinha oito anos os meus pais divorciaram-se, foi algo repentino que surgiu do nada e virou o meu mundo de pernas para o ar. Fiquei com a minha mãe, e uns anos mais tarde ela voltou a casar. A verdade é que me sinto mil vezes mais filha do meu padrasto do que do meu "verdadeiro" pai. Mal o conheço. Ele nunca esteve lá. Não foi ao meu primeiro recital de piano, não me aplaudiu quando venci a minha primeira prova na natação, nem um raio dum postal me foi capaz de mandar, e agora do nada regressou a minha vida esperando encontrar-me tal como me deixou, um miúda de oito anos com duas traças e um ursinho de peluche na mão. Está tão enganado se pensa que vai ser assim!
#1
A maioria das pessoas julga querer sinceridade, mas só mais tarde, quando nos momentos de raiva palavras indesejadas são proferidas é que entendem que apenas pretendiam a conveniência das falsas amizades. Cometi um erro há cerca de três meses, estava a ser o Verão da minha vida e depois tudo foi pelo cano abaixo. Fui arrastada pela corrente e agora só me resta lutar por aquilo que até há bem pouco foi meu.
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